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DICTADOS
FERRAZ
DE MACEDO
Na
Terra tudo é instavel, tudo é mesquinho. E, se ha nesse mundo, algo que
perdure atravez das edades, que não desmorone como os monumentos levantados
pela vaidade humana, que se não anniquille ao sôpro da volubilidade dos
homens, que se não afogue nos sorvedoiros das miserias terrestres, é, por
certo, o clarão immorredoiro da fé.
Sem a fé, todos os caminhos
são escuros; á sua luz, tudo se aclara, ou desobscurece.
Busque-se ahi o que o mundo
considere o seu mais precioso thesouro, o que constitua os fastos de uma
civilisação em seus apogêus, a maxima expressão materialisada do pensamento
dos homens, monumentos d’arte que espelham a evolução de um povo, e,
comparando-os á fé que devassou os mysterios sombrios das florestas,
affrontando emboscadas e perigos, resplandecendo sobre as éras que se
escoaram, acima das dores que accomettem a humanidade, fóra da instabilidade
das realizações mundanas, ver-se-á que as cidades se esboroam com o tempo e
a arte envelhece com os decennios e as civilisações desapparecem no abysmo
dos seculos.
A persiste, constantemente
nova, rejuvenescida a cada hora que passa, transpondo as barreiras dos annos,
immortalisada, porque é emanação divina que o espirito assimila e absorve.
Não desabrocha no mundo; é
dadiva de Deus aos que a buscam. Symbolisa a união da alma com o que é
divino, a alliança do coração com a divindade do Senhor!
Ha quem assevere que a fé mais
pura engendra o fanatismo mais subserviente.
Fallacissima é a argumentação
de quem assim pondera, porque a fé não céga a razão; antes, aclara-a para a
comprehensão do amor a Deus. Utilisam-se, capciosamente, desses ensinamentos
falsificados os propagadores do atheísmo, inconoclastas do altar
esplendoroso do coração, onde se enthronisa a essencia divinisada da fé;
mas, acontece que, se julgam tanta grandiosidade pelo prisma amesquinhado da
sua incuravel myopia, como um objecto nullo e prejudicial, não saberão
enxergar que, emquanto a religião ou a fé crêa um fanatico, a irreligião
esterilisa milhares de corações insinuando os assassinios, os suicidios e
todas as pragas que assolam a humanidade. Emquanto. a religião faz surgir
alvoradas em trevas densas, sustentaddo as energias para as lutas
espirituaes, mostrando o lamaçal dos peccados, apontando o céo como
recompensa ás agruras da Terra, alimentando as fibras da alma para os
martyrios, demonstrando a misericordia immensa do Todo Poderoso, a descrença
quasi sempre obra despotismos.
Onde o segredo do sacrificio
sublime do Crucificado? Na fé que o abrazava.
Remontando a todos os tempos,
veremos a fé, como archote divino, clareando os trilhos desconhecidos aos
primeiros passos da humanidade. Afigura-se-me que, ao Fiat-Lux do
Creador, seguiu-se o seu esplendor celeste. Foi ella o canto da victoria,
segredado do Alto aos martyres do Christianismo, tornando-os conquistadores
da laurea immortal da suprema gloria, o conforto dos corpos, semelhantes a
vergonteas dessecadas da arvore da vida, dos anachoretas isolados nos
desertos, a salientarem aos povos da epoca a necessidade de abstinencia dos
gozos mundanos, com as suas austeras mortificações; foi ella a inspiração
dos monges illustres que na soledade e no silencio das suas celas de dor,
interpretaram as leis sagradas. Ella tem sido o hyphen que une as almas dos
justos ao Eterno, o fogo purificador dos espiritos, o amparo dos vacillantes
nas orlas dos abysmos, a força miraculosa que engendra a confiança dos
homens no Artifice do Universo e em seu excelso poder.
Emquanto ri a irreligião e
despreoccupada, a fé trabalha. Trabalhar é orar.
A fé está entre o trabalho e a
oração. Ao nascer, mal bruxoleia nas incognosciveis profundezas do espirito,
a fé se sente no dever de trabalhar, de integrar-se no rythmo maravilhoso de
tudo o que se opere para fecundação abençoada da luz no Universo. E’ a
caridade immaterial, porque a caridade que se concretisa é sempre o raio
myrifico projectado pela fé. São estas as duas virtudes gemeas, os dois
oceanos de luz, a inundarem de alegria o coração da espiritualidade. Onde se
alliam e se fundem irmãmente, gravam em indeleveis caracteres o poema da
perfeição! Edificaram o seu ninho na alma de escol do illuminado de Assis e
a Umbria tornou-se um clarão para a Christandade. Encontraram-se dentro da
religiosidade de S. Francisco Xavier, o pobre de Deus, que, humilhado e
esquecido, vencendo possantes obices com a sua coragem espartana, filha da
sua fé de apostolo, conquistou nas Indias, com o seu singelo crucifixo,
centenas de almas, para o seio bemdito do Christianismo.
Percorrendo-se o mundo de um a
outro extremo, ver-se-ão as realizações cyclopicas da fé em seus multiplos
aspectos, collimando uma unica finalidade, a demonstração da sabedoria e do
amor do Todo Poderoso, resplendente na Terra, desde as mais remotas
civilisações, nos antigos imperios e nas longinquas povoações dos primeiros
homens!
Revérbero celeste, podemos
reconhece-la no desprendimento dos eremitas da antiga Thebaida, nas lições
dos santos varões da Sagrada Biblia; no divino enthusiasmo dos Evangelistas;
nas mãos que ergueram mosteiros nos Alpes, como pousos confortadores,
acenando aos afflictos, fustigados pela tempestade; na palavra esclarecida
dos pescadores de almas, que se embrenhavam, envolvidos no seu halo radioso
e confiantes na Providencia Divina, pelos sertões invios e inhospitos do
Brasil e da Africa,conduzindo o ensinamento do Christo ás tribus selvaticas.
A religião tem sido a luz do
mundo. A irreligião é humana; mas, a Religião, origem de todas as
idéas sãs que exhortam o homem aos grandes deveres que o unem a Deus e ao
proximo, tem causa na fé, na essencia indefinivel do amor do Eterno.
Os homens, não raras vezes, a
malsinam, classificando-a de freio que os fere e subjuga; desconhecem esse
élo sacrosanto que os prende á Divindade e que lhes evita a queda nos
tenebrosos ôrcos das suas impenitencias. Habituaram-se a ver sempre as
esquirolas apodrecidas da polpa de um fructo, sem lhe perceberem as partes
sadias; a malicia os compelle perennemente a divisar o mal onde reside o bem
mais puro.
E’ assim que olvidam o
santuario dos seus corações, para se apegarem a extertoridades malsãs,
encobrindo a luz que lhes offusca as vistas, para verem sómente as fasquias
da treva, que multiplicam com o numero dos seus peccados, para içarem as
bandeiras do mal em todos os tempos. Esse o enorme erro do mundo: o
anniquilamento da fé em Deus. Combate-la é propagar a morte, espalha-la é
offerecer a vida e a paz aos semelhantes, desdobrando alvoradas de luz na
Terra.
E’ para esse desideratum que
se agita o mundo dos Espiritos, que, vexilarios da causa da Verdade, se
movimentam, qual poderoso exercito, entre os homens, esclarecendo-os,
derramando as verdades celestiaes sobre os seus companheiros de exilio,
reconstruindo o magnifico edificio da fé e da religião, a cuja sombra
bemdita e dulcificante descansará um dia a humanidade soffredora, livre do
systerna envenenado da irreligião e do materialismo destruidor.
(Recebido pelo medium
Francisco C. Xavier.)
Fonte: Reformador – maio,
1936
Responsável pela
transcrição: Wadi Ibrahim
Mantida a ortografia original
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