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O
Sineiro Cigano
Médium
Shyrlene Soares Campos
“...Ela
conheceu muito de Deus, mesmo não sabendo o que é fé, no entanto, ela
amou!
Um
dia em Andaluzia, havia um cigano; o nome dele era Omar, tinha seus músculos
muito fortes, seu rosto marcado por uma certa dureza, mas ninguém sabia
fazer sinos como aquele cigano.
Ele
trabalhava o bronze, de tal forma, que era capaz de extrair sonoridades de
sinos muito pequenos ou gigantescos e vinha, de longe, o clero, para
encomendar sinos para Omar, o sineiro cigano.
Omar
vivia com seu bando radicado em Andaluzia e tinha todos eles amigos
gratos, porque o dinheiro que ele recebia do clero, e ele cobrava
regiamente, como eles cobravam suas missas, seus batizados. Ele repartia
com todos os ciganos, não deixando faltar nada, e era amado por todos.
Mas
desde que o sol nascia até o anoitecer, o barulho insistente dele
trabalhando o bronze era ouvido e respeitado, mas havia uma jovenzinha
cigana, que ele tinha por ela um especial carinho, seu nome era Sarita.
Ela sempre estava por ali a rondar Omar e falava para ele:
Porque
você faz sinos?
Porque
dizem que os sinos chamam as pessoas para Deus, para mim, sino é sino, é
um instrumento que emite som. Mas eu prefiro o banjo..
Eu
prefiro o bandônion...
E
Sarita ria, dizendo:
É?
Tem muita gente aqui que não gosta de barulho, mas não reclama, porque
você ajuda a todos nós.
Sarita,
você é esperta demais, ele suportam meu barulho porque são preguiçosos
e não querem trabalhar, porque eu trabalho sem cessar. Ele falava
E
Sarita olhava Omar e desde quando ela era pequena o rosto dele era o
mesmo, não mudava, parecia passar o tempo, seus cabelos ainda eram
negros.
Omar
não envelhece diazia a sua mãe. Ele trabalha e trabalha com alegria.
E
ela continuava a perguntar, pois ela tinha uma curiosidade enorme:
Omar
o que que os padres fazem com os sinos?
Chamam
as pessoas para as missas....
E
o que eles fazem nas missas?
Dizem
que rezam, rezam para Deus.
Só
isso?!
Não!
Eles também batem os sinos quando as pessoas morrem.
Quando
as pessoas morrem?!
É!
E quando fazem festas dos santos também batem os sinos.
Ué!
Então eles batem os sinos para tudo? Eles compram tantos sinos, veio um
padre aqui e comprou seis sinos do mesmo tamanho, você ficou trabalhando
tanto tempo; um sino só não chegava?
Aquele
padre queria um carrilhão, foi o que eu fiz, seis sinos que tocam de uma
vez só!
Ai!
Mas que barulhão Omar! Será que Deus só escuta quando bate o sino?
Não!
Deus escuta àqueles que choram, Deus escuta àqueles que sabem sorrir,
Deus escuta àqueles que dançam, Deus escuta àqueles que trabalham, não
é preciso bater o sino para que Deus nos escute, guarde isso Sarita com
você.
Você
não podia fazer um sino para mim?
Vou
fazer um sino bem pequenino e vou colocar nele dois corações: o meu e o
seu ele falou.
Ela
ficou toda feliz!..
Ele
parou com todas as encomendas e não se ouviu no bando aquele barulhão
infernal, que na verdade, era celestial, e foi fazer naquele dia o sino
para sua pequena Sarita.
Quando
eu vou tocar o sino, Omar? Falou Sarita.
Quando
você quiser! Toque quando você quiser! Se você quiser falar com Deus,
toque o sino, se você estiver alegre, toque o sino, se você estiver
triste, toque o sino.
Ah!
Eu queria muito... muito... ver o seu carrilhão tocar numa igreja.
Quando
eu for ao centro de Andaluzia, vou te levar a uma igreja para você ver de
longe onde ficam os sinos que eu faço.
E
assim ele fez: levando Sarita pela mão, comprou para as jovens gitanas
muitas águas de cheiro e mostrou para ela a igreja.
Esperam
chegar as dezoito horas, chegariam um pouco tarde no bando, lá no
acampamento, mas ela teve a alegria de ouvir o sino tocar.
Que
barulho! Disse ela.
As
pessoas iam chegando, carruagens iam parando e todos olhavam para ela e
para aquele homem, vestido apenas com uma minúscula jaqueta de couro.
Omar,
olha o rosto dessas pessoas, olha que cara feia eles têm, as mulheres são
bonitas, mas olham com a cara tão feia! Será que Deus vai gostar?!..
falou ela.
Sarita,
não sei, de Deus entendo pouco, de sinos entendo muito, não sei! Pode,
às vezes, atrás de uma cara feia, ter uma grande dor e pode, às vezes,
atrás de um sorriso, ter um mar de pranto, são coisas da vida e você é
muito pequena para entender de viver. Vamos voltar?
E
ela, com a sua saia rodada, foi saltitante pelas ruas, dando rodas, sendo
olhada pelas pessoas do povo, porque na igreja só podiam entrar
luxuosamente vestidos. Ela pegou a carroça e foi cheia de felicidade
contar as coisas que tinha visto. Era uma gitana Andaluz.
Para
baixo e para cima ela andava com o sino na mão, olhando para o céu
pensando:
“Onde
será que Deus se esconde?! Como será a face de Deus? O que será que tem
dentro das igejas? Porque Deus só escuta, quando é chamado com os
sinos?...”E ela batia o seu sininho todo o dia e olhava para fora de sua
barraca dizendo:
Será
que Deus me escutou?...
Um
dia Omar começou o seu trabalho e já eram duas horas da tarde, o sol já
tinha se posto a pino e já estava dobrando no firmamento e Sarita não
chegou e ele foi até a tenda e perguntou:
Cadê
Sarita?
Queima
em febre, não sei o que fazer! Disse a mãe dela.
Tem
que fazer alguma coisa1.. falou ele
Já
dei todas as nossas ervas, a febre não cessa e não é só a febre, ela
delira e já não tem mais, no seu corpo que definha, qualquer líquido.
Ela toma e vomita.
Ele
colocou-a numa manta e falou:
Vou
procurar um doutor.
Chegou
no centro onde os doutores atendiam, bem surtido com uma sacola de couro
com moedas de ouro e pediu a um doutor que olhasse a pequena Sarita.
O
que ela tem? Disse o médico.
Febre!
E
explicou as reações orgânicas da menina, os problemas de vômitos
intestinais.
Vocês
vão ter a peste onde vocês moram. Ela está com cólera, vai durar pouco
tempo; seu corpo é muito jovem para agüentar, disse ele.
Mas
não é possível doutor!
Vá!
Vá! E leve a menina, leve-a, não queremos saber de nenhum cigano no
centro da cidade, já vou comunicar às autoridades para que vocês fiquem
isolados, de quarentena, até morrer o último dos ciganos.
Ele
voltou com Sarita. Velou três sois e três noites e ela morreu...
Arranjaram,
porque eram obrigados a pôr fogo no corpo dos ciganos que morriam, mas
ele arranjou um lugar, enterrou aquele corpinho e enquanto eles carregavam
Sarita ele ia à frente batendo o sininho que ele fez. Como nos campanários,
com dois pedaços de bronze e um suporte, um lugar para dependurar o sino.
Ficou dois dias plantando flores, qualquer flor que encontrasse, ele
levava para aquele lugar e enfeitava de flores e quando o vento batia... o
vento que não tem preconceito, o vento que não escolhe por onde passar e
passa sem medo em qualquer lugar, que não vê raça, que não vê guerra
nem paz, o vento de Deus, batia o sininho que cimbalava: “adeus Sarita!
Adeus Sarita!”
Mais
cinco pessoas da mesma família de Sarita partiram, mas, como se esperava,
não houve um grande surto de cólera, porque Omar, além de ser um grande
sineiro, era um homem observador, experiente e vivido e isolou as pessoas
e tratou aqueles que estavam com cólera e seu corpo forte como bronze não
se contaminou e o vento tocava o sininho: Adeus Sarita! Adeus Sarita!
Eu
me sinto feliz por poder homenagear uma ciganinha como eu fui e que eu
conheci e que viveu tão pouco, mas que conheceu muito de Deus, mesmo não
sabendo o que é fé, ela amou.
Cristal
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