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ADVERTÊNCIA PRECIOSA
Lima
A fase terminal de nossas tarefas, na noite de
12 de agosto de 1954, trouxe-nos à presença antigo companheiro de lides
espíritas em Belo Horizonte, que passaremos a nomear simplesmente por Irmão
Lima, já que o respeito fraternal nos impede identificá-lo plenamente. Lima,
que era pai de família exemplar, desfrutava excelente posição social e, por
muitos anos, exerceu os dons mediúnicos de que era portador em ambientes
íntimos. Em 1949, como que minado por invencível esgotamento, suicidou-se sem
razões plausíveis, trazendo, com isso, dolorosa surpresa a todos os seus
amigos. Na noite a que nos referimos, naturalmente trazido por Amigos
Espirituais, utilizou-se das faculdades psicofônicas do médium e ofertou-nos o
relato de sua história comovente, que constitui para nós todos uma advertência
preciosa.
Venho da escura região dos mortos-vivos, à
maneira de muitos vivos-mortos que se agitam na Terra. O Espiritismo foi minha
grande oportunidade. Fui médium. Doutrinei. Contribuí para que os irmãos
sofredores e transviados recebessem uma luz para o caminho.
Recolhi as instruções dos mestres da sabedoria e
tentei acomodar-me com as verdades que são hoje o vosso mais alto patrimônio
espiritual.
Fui consolado e consolei.
Doentes, enfraquecidos, desesperados, tristes,
fracassados, desanimados, derrotados da sorte, muitas vezes se reuniam junto
de nós e junto de mim...
Através da oração, colaborei para que se lhes
efetivasse o reerguimento.
Mas, no círculo de minhas atividades, a dúvida
era como que um nevoeiro a entontecer-me o espírito e, pouco a pouco,
deixei-me enredar nas malhas de velhos inimigos a me acenarem do pretérito que
guarda sobre o nosso presente uma atuação demasiado poderosa para que lhe
possamos entender, de pronto, a evidência...
E esses adversários sutilmente me impuseram à
lembrança o passado que se desenovelou, dentro de mim, fustigando-me os germes
de boa-vontade e fé, assim como a ventania forte castiga a erva tenra.
Enquanto a vida foi árdua, sob provações
aflitivas, o trabalho era meu refúgio. No entanto, à medida que o tempo
funcionava como calmante celeste sobre as minhas feridas, adoçando-me as
penas, o repouso conquistado como que se infiltrou em minha vida por venenoso
anestésico, através do qual as forças perturbadoras me alcançaram o mundo
íntimo.
E, desse modo, a idéia da autodestruição
avassalou-me o pensamento. Relutei muito, até que, em dado instante, minha
fraqueza transformou-se em derrota.
Dizer o que foi o suicídio para um aprendiz da
fé que abraçamos, ou relacionar o tormento de um espírito consciente da
própria responsabilidade é tarefa que escapa aos meus recursos.
Sei somente que, desprezando o meu corpo de
carne, senti-me sozinho e desventurado.
Perambulei nas sombras de mim mesmo, qual se
estivera amarrado a madeiro de fogo, lambido pelas chamas do remorso.
Após muito tempo de agoniada contrição, percebi
que o alívio celeste me visitava. Senti-me mais sereno, mais lúcido...
Desde então, porém, estou na condição daquele
rico da parábola evangélica, porque muitos dos encarnados e desencarnados que
recebiam junto de mim as migalhas que nos sobravam à mesa surgem agora, ante a
minha visão, vitoriosos e felizes, enquanto me sinto queimar na labareda
invisível do arrependimento, ouvindo a própria consciência a execrar-me,
gritando:
-Resigna-te ao sofrimento expiatório! Quando te
regalavas no banquete da luz, os lázaros da sombra, hoje triunfantes, apenas
conheceram amarguras e lágrimas!...
Imponho-me, assim, o dever de clamar a todos os
companheiros quanto aos impositivos do serviço constante.
A ação infatigável no bem é semelhante à luz do
Sol, a refletir-se no espelho de nossa mente e a projetar-se de nós sobre a
estrada alheia. Contudo, no descanso além do necessário, nossa vida interior
passa a retratar as imagens obscuras de nossas existências passadas, de que se
aproveitam antigos desafetos, arruinando-nos os propósitos de regeneração.
Comunicando-me convosco, associo-me às vossas
preces.
Sou o vosso Irmão Lima, companheiro de jornada,
médium que, por vários anos, guardou nas mãos o archote da verdade, sem saber
iluminar a si próprio.
Creio que um mendigo ulcerado e faminto à vossa
porta não vos inspiraria maior compaixão.
Cortei o fio de minha responsabilidade...
Amigos generosos estendem-me aqui os braços, no
entanto, vejo-me na posição do sentenciado que condena a si mesmo, porquanto a
minha consciência não consegue perdoar-se.
Sinto-me intimado ao retorno...
A experiência carnal compele-me à volta.
Antes, porém, da provação necessária, visito,
quanto possível, os ambientes familiares de nossa fé, buscando mostrar aos
irmãos espiritistas que a nossa mesa de fraternidade e oração simboliza o
altar do amor universal de Jesus-Cristo.
Temos conosco aquele cenáculo simples, em que o
Senhor se reuniu aos companheiros de sublime apostolado...
De todas as religiões, o espiritismo é a mais
bela, por facultar-nos a prece pura e livre, em torno desse lenho sagrado,
como sacerdotes de nós mesmos, à procura da inspiração divina que jamais é
negada aos corações humildes, que aceitam a dor e a luta por elementos básicos
da própria redenção.
Estou suplicando ao Senhor me conceda,
oportunamente, a graça de reencarnar-me num bordel. Isso por haver desdenhado
o lar que era meu templo...
Indispensável que eu sofre, para redimir-me,
diante de mim mesmo.
Não mereço agora o sorriso e os braços abertos
de nossos benfeitores, perante o libelo de meu próprio juízo.
Cabia-me aproveitar o tesouro da amizade,
enquanto o dia era claro e quando o corpo carnal - enxada divina - estava
jungido a minha existência como instrumento capaz de operar-me a renovação.
Ah! meus amigos, que as minhas lágrimas a todos
sirvam de exemplo!...
Sou o trabalhador que abandonou o campo antes da
hora justa... O tormento da deserção dói muito mais que o martírio da derrota.
Devo regressar...Reentrarei pela porta da
angústia.
Serei enjeitado, porque enjeitei...
Serei desprezado, por haver desprezado sem
consideração...
E,mais tarde, encadear-me-ei, de novo, aos
velhos adversários. Sem a forja da tentação, não chegaremos ao reajuste.
Rogo, pois, a Deus para que o trabalho não se
afaste de minhas mãos e para que a aflição não me abandone... Que a carência
de tudo seja socorro espiritual em meu benefício e, se for necessário, que a
lepra me cubra e proteja para que eu possa finalmente vencer.
Não me olvideis nas vibrações de amizade e que
Jesus nos abençoe.
Lima
[Chico Xavier - Livro Instruções Psicofônicas
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