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A
Causa
Final
Espírito
Deolindo
Amorim
Médium
Elzio
Ferreira
de
Souza O
Livro dos Espíritos inicia-se
com uma definição de Deus,
considerando-O como causa primária
de todas as coisas.
Naturalmente, não temos aí
uma verdadeira definição,
porque esta implica numa descrição,
ainda que sumária, do objeto
definido, e não se pode
definir Deus. Deus é indefinível.
É, portanto, uma noção que
se oferece, para que se possa
ter, na Divindade, o ponto
inicial de toda a estrutura do
Espiritismo. A Doutrina não
procurou descrever a Deus,
salvo através de atributos
gerais que pudessem orientar
sobre tudo aquilo que Deus não
poderia deixar de ser, sem
deixar de ser Deus, como
assinalou Kardec. A
admissão dessa noção
primeira norteia todo o
desenvolvimento da Doutrina, e
o fato de não poder dar uma
definição completa em nada
depõe contra ela, pois também
numa ciência positiva como a
matemática é preciso partir
de um ponto, considerado sem
dimensão, para que se possa
erguer o edifício da
geometria, ou de pressupostos
contraditórios - duas
paralelas se encontram no
infinito; por um ponto tomado
fora de uma reta não se pode
fazer passar nenhuma paralela a
esta; pode fazer passar-se uma
infinidade de paralelas a esta.
O próprio raciocínio
utilizado de que não há
efeito sem causa, que nos leva
a reconhecer a necessidade de
uma causa inteligente para
justificar os efeitos, ou seja,
a natureza e o homem, apesar da
crítica de Kant, não pode ser
colocado de lado como um
instrumento de trabalho da
filosofia, mesmo porque o que
caracteriza esta é exatamente
a natureza da busca permanente
das causas primárias e últimas,
a curiosidade no desvendar os
mistérios do Universo e do
Homem, e assim a transposição
do conceito de causa do
conhecido para o desconhecido
segue o ritmo do que se vê na
própria ciência física e na
astronomia, quando se procura
explicar certas perturbações
no microcosmo e no macrocosmo
pela presença de astros ainda
desconhecidos. É um raciocínio
que se faz por inferência,
pois. Se é certo que não podemos
apresentar uma prova insofismável
da existência de Deus, porque
Ele não se encontra dentro da
categoria dos objetos demonstráveis,
é, todavia, certo que o
sentimento de sua existência
é inato ao homem e perde-se na
noite dos tempos. Como poderia
ter este surgido na alma
humana? Teria bastado o abismo
do desconhecido, a expectação
ante os fenômenos naturais, o
medo? Pode o homem especular
quanto deseje, mas não poderá
negar que, enraizado na sua própria
natureza, se encontra mais que
medo, temor, admiração ante a
grandiosidade da Natureza:
existe um sentimento que
denuncia a presença de Deus em
cada criatura, justificando o
sentimento inato de sua existência,
ligação e orientação final
no percurso de retomo, atraído
que se encontra todo o Universo
pelo centro que é Deus. também
não se pode desconsiderar que
os cientistas até o presente não
conseguiram despistar a ciência
cosmológica do reconhecimento
de um ato inicial de criação,
porque se houve um momento
inicial a que, ironicamente,
denominou-se de big-bang”,
tem-se de admitir que, nada, ao
menos do que se conhece,
existia, e este antes não só
foge à compreensão humana,
mas induz a considerar a existência
de um momento criador, quando
tudo começou para que um dia o
homem pudesse existir. Nem a
teoria de um universo estacionário
que, aparentemente, procura
fugir ao ato criador consegue
explicar a existência do
universo, no máximo
traduzindo-se no apaziguamento
da consciência, se não na
transformação do universo em
um novo deus”. consideremos
um outro lado: O Livro dos Espíritos
não conceitua Deus como sendo
a causa final de todas as
coisas, mas é, evidentemente,
o que decorre de toda a
Doutrina”. A razão, o
objetivo final de tudo o que
ocorre, é sempre determinado
pelo alcance de um alvo único
- Deus, que assim não foi só
o impulsionador primeiro, mas
é o ponto de atração de todo
o universo: todas as coisas,
todos os seres estão Nele
centrados e dirigidos por Ele.
O Evangelho revela, de modo
simples, este unidirecionamento
do universo quando recolhe as
palavras de Jesus de que nenhum
cabelo cairia sem a vontade do
Pai. Não está aí a revelação
deste sentido do universo, não
é o reconhecimento de um
comando, de uma direção? E
noa podia deixar de ser assim
num universo evolucionário,
pois a evolução se dá sempre
numa determinada direção para
atingir um determinado alvo.
Portanto, não podemos esquecer
que temos em Deus não somente
o princípio inteligente a
impulsionar a marcha evolutiva,
mas que temos nele, igualmente,
a causa de atração de todo o
universo que se apresente
unidirigido. A
que vem isto? Por que tais
considerações que poderiam
parecer dispensáveis? São
perguntas que naturalmente
podem ser colocadas pelos que
as lerem. À primeira vista,
inexistiriam razões para fazê-las,
porém, a partir delas,
gostaria de chamar a atenção
de que o fato de nos voltarmos,
de modo peremptório, para o
ato criador, até deslumbrados
com as conquistas que vai
fazendo a ciência no
desvendamento dos mistérios
cosmogônicos, tem desviado a
atenção dos indivíduos de
observar a direção da própria
vida, a condução dos próprios
passos. O que quero dizer é
que, geralmente, o homem se
volta para um Deus criador,
colocando-O a uma distância
infinita, e, por isso mesmo,
desconhece sua presença, sua
direção, relutando contra sua
atração. Não parece certo
reconhecer que, se tivéssemos
uma visão mais correta da
presença de Deus como o
supremo objetivo da vida, outra
seria a nossa conduta, outro o
nosso comportamento? Não sei
se, pelo fato da civilização
cristã ter sido influenciada
durante muito tempo por Aristóteles,
diretamente ou via São Tomás
de Aquino, a sobrevivência de
certos conceitos perdura no
mundo ocidental, embora não
possamos culpar o doutor da
Igreja. Agimos ou não, em
nossas vidas, como o filósofo
estagirita, ou seja, admitimos
um Deus como primum mobile,
mas, do mesmo modo que ele o
afastou de qualquer influência
no universo existente, nós
também costumamos afastá-Lo
de nossas vidas? É claro que não
falo de um afastamento formal.
De modo algum; ainda vemos
pessoas persignarem-se diante
dos santos e das igrejas,
ajoelharem-se na via pública a
reverenciar Alá voltadas para
Meca, celebrarem o Shabat com
todo o ritual e participarem de
reuniões e reuniões mediúnicas,
e doutrinárias, num esforço,
talvez, de inscrever-se em
algum Guiness Book - o livro
dos recordes. Refiro-me à
questão essencial da aceitação
de Deus na própria vida, em
seu direcionamento, em
conformidade com as leis
divinas. Mesmo no campo espírita,
infelizmente, não podemos
dizer que temos feito muita
coisa melhor que os outros. É
preciso não confundir o
conhecimento revelado pelos Espíritos,
o conhecimento doutrinário, as
perspectivas que estes
conhecimentos abrem para o ser
humano, com a atitude do espírita
individualmente, nem com o
movimento espírita como
conjunto. Chega-se à Doutrina, toma-se
conhecimento de uns tantos
princípios, inscreve-se o
indivíduo como sócio
contribuinte de uma ou mais
sociedades, com o pagamento de
uma pequena mensalidade de
praxe, às vezes se dispõe à
participação em algum
movimento social patrocinado
pela Doutrina, mas... Este mas
ou porém diz sempre respeito a
uma série de coisas que o
indivíduo resolve não abrir mão.
Realmente a sua natureza não
mudou, ou modificou-se, em
fatores que eram essenciais.
Assim, admita-se ou não, Deus
está colocado à parte da
vida, pois apesar de ter gerado
o universo, nós teimamos em
impedir que Ele recrie a nossa
natureza, ou seja, utilizamos
mal o nosso livre-arbítrio,
desconhecendo que os piores
inimigos não são os outros, não
são os obsessores, mas nós próprios,
que abrimos canais extensos à
ação do mal. Que
aconteceria se atentássemos
para o fato de que Deus é
realmente o objetivo da vida
humana e que a marcha evolutiva
nele se consuma?” Que
aconteceria se o homem passasse
a agir consoante este
entendimento? Os nossos males não
são derivados da disparidade
entre o nosso discurso e os
nossos atos? Consideremos o
fato de que temos, em O
Evangelho Segundo o
Espiritismo, um roteiro de
conduta cristã dirigido para
homens comuns, e não para
santos. Ali está o básico, e
eu gostaria de dizer, o
indispensável, para que se
possa ser reconhecido como um
verdadeiro espírita,
verdadeiro cristão, que, como
disseram os Espíritos, é a
mesma coisa. Temos, portanto,
um manual prático de como
dirigir a vida consoante as
leis divinas. Toda vez que alguém
se inicia no Espiritismo com a
recomendação de praticá-lo,
se desejasse ser espírita. Não
seria demais, devemos enfatizar
a questão. A única
dificuldade que vejo não está
no preço do livro, nos custos
que isto poderia acarretar,
mesmo porque o grande esforço
de divulgação das editoras
tem sempre deixado o Evangelho
ao alcance das bolsas; a única
dificuldade, repito, seria
saber quem teria autoridade
suficiente para a entrega e a
recomendação. Tal
observação pode fazer sorrir
ou chorar. Mas o que importa
realmente é aprendermos a
trazer a Deus por dentro de
nossas vidas, pois este é o único
modo de resolvermos os
problemas do mundo. Jornal Espírita
de Pernambuco
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