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A
BELEZA SOB NOVO PRISMA
Ainda não faço parte dos
tarefeiros que mourejam na Terra, no abençoado afã de servir. Sou agregada
das colônias e pedi ao venerável Dr. Bezerra de Menezes que me concedesse a
oportunidade de dar o meu testemunho, principalmente por ser a Terra palco
de tantas vaidades, de tantas ilusões.
Estive em uma encarnação,
em Sevilha. Descobriram na escola meus grandes pendores para a dança. e a
beleza foi-se plasmando em meu corpo a medida que eu crescia. Quanto mais
bela eu ficava, mais vaidosa e independente eram as minhas atitudes. Como
quem se liberta de algemas pesadas, deixei a casa paterna pelos falsos
braços de quem eu julgava ser amigo. Abandonada logo depois, mergulhei na
vida noturna, desvairadamente. Procurei as tabernas mais inferiores. E nas
noites de orgia, nas bodegas de Sevilha, dançava e cantava incansavelmente.
Certa noite, entrando em
disputa com uma companheira, por um rico senhor já avançado em idade,
pródigo em oferecer pesetas ¹, tive meu rosto mutilado por uma afiada
navalha. Não havia recursos naquela época para restauração facial e uma
enorme infecção repuxou um lado do meu rosto, me transformando numa criatura
deformada. Poderia na época ter me recolhido a algum convento. Havia casas
de caridade, mas, não. Minha boca era belíssima e consegui com donos de
bodegas um número diferente. Eu cobria a parte superior do rosto, deixava só
aboca à mostra e os belos seios, e por pesetas, distribuía nas tabernas,
beijos. E viam bêbados se divertirem e rirem para colher no prazer de um
segundo, a beleza dos meus lábios, enquanto eu arrebatava dinheiro para o
meu sustento. Terminei meus dias em extrema miséria mendiga, a esmolar nas
portas das igrejas.
Narrar o que eu sofri no
plano espiritual é desnecessário. Bem podem avaliar as condições dos
espíritos que me cercavam. O deboche, a maldade...
Em um belo dia fui
informada que voltaria à Pátria. Deveria reencarnar com família, filhos e o
auxílio de amigos que se ofereceram para me tutelar e teria um esposo
dedicado. Até aí a reencarnação só me oferecia vantagens e eu aceitei. E
tudo foi como o esperado. Até que depois de casada, muito vaidosa e
procurando sempre ansiosamente o olhar de todos os homens, com os quais me
divertia, apesar de amar o esposo e minhas duas filhinhas, terrível
enfermidade se abateu sobre os meus lábios. Primeiro uma acentuada inchação.
Um caroço escuro na parte inferior dos lábios. E depois, o corroer lento,
progressivo de pertinaz enfermidade a me roubar a beleza do rosto, a me
deformar. O mal cheiro, desespero .. Muitas vezes pensei em terminar com
os meus dias. Mas lá dentro de mim, insistentemente, uma voz falava:
Fique firme, suporte, siga
adiante...
E o desespero de ver pouco
a pouco meu rosto ser dilacerado, devorado, me torturava. Mas fui
suportando, até chegar ao fim dos meus dias. Fui acolhida por uma colônia de
esclarecimentos. Todas as minhas encarnações foram mostradas. Meu inimigo
pior era a vaidade, o hábito desregrado, o desrespeito ao corpo físico, o
desrespeito à confiança, ao amor que me devotavam, o desapego à benção da
família, as permanentes fugas do lar materno, sempre haviam sido uma
constante no meu destino. E quando me restauraram a face no plano
espiritual, eu já não ansiava mais pela beleza física. Havia observado dia a
dia meu rosto corroído, já não queria mais nada que me pudesse leva às
quedas morais. E pedia ansiosamente uma vida bem humilde e recatada. E me
foi concedida.
Eu era a mais feia de três
irmãs e no entanto despertei paixão e amor no coração boníssimo de um
companheiro dedicado. Sim, lá dentro de mim, eu invejava as minhas irmãs tão
belas e quando, às vezes, à noite chorava, querendo ser tão bela quanto
elas, tinha pesadelos horríveis. Sonhava que mãos me arrancavam a face, me
deformavam. E eu então despertava em dolorosa sudorese com o coração batendo
descompassado, e no dia seguinte, mais humilde eu me tornava. E foi uma
encarnação feliz, fui uma mãe tão amada... Meus braços recebiam cada neto
com alegria. Eu mesma fazia seus partos. E aprendi, então, a alegria de
servir! A alegria de encontrar beleza em tudo aquilo que nos cerca. Respeito
pelo corpo, tolerância a dor, alegria na humildade, conforto na religião. E
todas as minhas irmãs, tão belas, choravam durante muitos anos as suas
desilusões nos meus ombros. E eu lhes dizia:
Tudo é passageiro. Procurem
a alegria da alma. Porque só na alma, realmente, estão as mais puras
alegrias.
Ainda não estou preparada
para servir. Na colônia, trabalho. Trabalho junto a enfermos, junto à
manutenção, mas para trabalhos maiores ainda terei que ser preparada. Porque
ainda não aprendi a verdadeira caridade. Aprendi a ajudar os meus, a servir
aos meus. Agora, certamente, numa próxima encarnação, aprenderei a servir
aos meus semelhantes para poder dar largos vôos em busca da renovação e
sentir no coração a alegria tão sublime de ser Serva do Senhor!
As colônias representam no
espaço, o que representam na Terra os Núcleos Espíritas, as congregações
religiosas. Uma grande família de pessoas distantes, ainda sem perfeição,
mas possuidoras de idéias semelhantes. Sirvam sem cansaço. E quando
estiverem cansados, sirvam ainda mais.
Porque no plano espiritual
lamentamos e choramos cada momento vazio, cada hora perdida. E como
invejamos, de maneira positiva, aqueles que chegam sendo festejados e
abraçados porque serviram muito, sem descanso, na Terra.. Sirvam com Jesus.
O preço da renúncia é a Luz.
Bernarda
Mensagem extraída do livro
”Um amanhã de luz” da médium Shyrlene Soares Campos
¹ Pesetas – Moeda espanhola
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