ORDENAÇÕES SUBLIMES

 

            Maria irradiava felicidade.

            Sentia que, em seu ventre, carregava a semente de uma criança e, por isso, surpreendia-se a conversar com Jesus, envolta em clima de amor infinito.

            -  Sou sua serva!  -  afirmava, em seus pensamentos e transmitia em suas palavras  -  e, assim, sou grata por fazer-me sua mãe!

            Miriam achegou-se naquele instante.

            -  Fala sozinha, Maria?!

            A interpelada sorriu.

            -  Não, Miriam! Falo com meu filho Jesus, agradecendo-lhe pela bênção da maternidade.

-         E...Ele lhe escuta?!

-         Se todos os filhos, em vias de renascer, ouvem os pensamentos maternos, como que o Senhor não me ouviria, a mim que sou a sua serva?

E, após breve pausa, complementou:

-    Algumas vezes, Miriam, não sei se eu o acolho com profundo amor

ou se é o amor dele que me envolve toda a minha alma!.

-         Pelo que você me diz, Maria, esse Jesus, mais que outros filhos, lhe assegurará paz e tranqüilidade por todos os seus dias de vida.

Maria, após ligeira hesitação, afirmou:

-    Não será a paz e a tranqüilidade dos bens da Terra, Miriam! Registro as advertências, deste meu futuro filho, de que viverei momentos de lutas e verterei muitas lágrimas.

-         Não me diga! São presságios dolorosos!

-         Em verdade, os pensamentos de Jesus me convocam para buscar

a paz nas obrigações fraternais bem vividas e que deverei procurar a tranqüilidade da consciência que cumpriu com todos os deveres de amor aos semelhantes.

-         Isso soa a sacrifícios, Maria!

-         O único sacrifício imposto pelo amor é a quebra do egoísmo, Miriam!  E, bem por isso, sinto-me ditosa, já que sei que este meu filho, acima de tudo, será a Luz Divina para todos os que aspirarem a uma vida integral com as leis divinas.

*

            Maria, agora, estava só.

            Sentiu brotar, no fundo de seu coração, um desejo ardente de visitar a sua parenta Isabel.

            De pronto, e sem hesitação, entrou pelo galpão onde José, seu marido, estava entre aos afazeres da carpintaria.

            José interrompeu o trabalho ao vê-la e sorriu.

-         Que a traz aqui, Maria?

-         Ah! José! Sinto em meu coração que deveremos visitar Isabel, a bem-amada esposa de Zacarias, que também espera um filho, assim como nós.

-         Mas...Eles moram tão longe, Maria!

-         Que importa a distância, José? O sacrifício que impomos para a visita, nos fará crescer em amor fraternal!

José deitou um olhar à sua volta.

-         E que será de nossa pobre casinha, Maria?

Ela sorriu e respondeu:

-         Ela ficará sob a guarda do Pai Celestial, José! E, além disso, tenho, no fundo de minha alma, a certeza de que seremos convocados para muitas viagens!

José suspirou paciente.

-         É...nosso futuro Filho que lhe inspira essa idéia?

-         Sim, José! E, sabendo que além de filho, ele é nosso Mestre e Senhor, quero seguir as sugestões que ele nos transmite.

José coçou a cabeça.

-         Nunca ouvi falar de uma criança, ainda no ventre materno, que estivesse a distribuir ordenações a seus pais!

Maria aproximou-se ainda mais de José, dizendo-lhe:

-         São ordenações sublimes, meu amado José! Este filho, que trago no ventre, é superior aos pais! E, como servidores agradecidos e submissos, alegremo-nos em atendê-lo.

 

(Do livro “Maria de Nazaré”, de Roque Jacinto)