" Verás que um filho teu não deixa a prece"

 (...há momentos de luz)
 
Há duas maneiras de nos comunicarmos com Deus: pelo trabalho e pela oração.
Anos atrás, numa manhã de domingo, estava ao lado de Chico Xavier, peregrinando por um bairro paupérrimo de Uberaba.. Havia luz e transparências no ar. No meio da rua, veio em nossa direção uma mulher de uns 60 anos, ela parou e disse: " Chico, me ajuda, meu netinho está mal, ele pode morrer". Chico a observa e responde: " Minha filha, a prece de uma avó por um neto amado arromba as portas do céu".
Numa viagem de carro entre Bom Retiro e Porto Alegre, fiz uma prece em hora não costumeira e ouvi uma voz muito suave que me dizia: " Siga mais à direita".
Atendi sem atinar o porquê mas, na primeira curva da estrada, um Fiat entrou em alta velocidade na contra-mão, mal tive fração de segundo para me enfiar pelo acostamento. Tem automobilistas, que supondo estar apenas em busca de emoções fortes, entram no outro mundo com diploma de suicida.
Depois que meu filho foi morto, num acidente de moto por um motorista drogado, fui à Estrada do Sol, na Praia do Imbé, RS, buscar o que restara de sua máquina. Colocados os pedaços num pequeno carro-reboque, me ajoelhei para orar. No meio da prece, não sei porque, abriu-se-me um vazio e interrompi a oração, de resto, naquele instante, sem convicção. A seguir levantei-me, limpei algumas pedrinhas no joelho e disse: " Meu filho, tinhas tanta alegria de viver, perdoa-me por ter te atraído para esse planeta de dores". Era minha lancinante dor de pai, naquele  momento maior que tudo. Não, não haveria hipocrisia. Cristo, na hora do lance supremo, exclamou:- " Pai, por que me abandonaste?" Eu não compreendia
o pensamento de Deus ante o destino de meu único filho e amigo. Era a dura reallidade. Não há fé sem crises,aliás, são as crises que dão oportunidade ao aprofundamento da fé.
Depois o tempo andou, girou o mundo e a vida, conversei com outros pais mais sofridos, com pessoas carregando cruzes mais pesadas que a minha. Até que um dia acordei orando, acompanhado por suave e misteriosa voz, que cessou ao fim da prece.
Desse amanhecer em diante, voltei às preces diárias, a fé fortalecida na provação, o coração reconciliado com a frágil condição humana ante o corolário natural da desencarnação.
 
Autor: Fernando Worm