VIDA VERSUS AMOR
A vida explora — o amor é explorado...
Por isso, são incompatíveis o amor e a vida...
Eternos antagonistas — mortais inimigos...
No dia e na hora em que isso compreenderes, meu ignoto amigo, melancolia profunda te envolverá a alma e angústia imensa te invadirá o coração...
Procurarás fugir deste mundo imperfeito e paradoxal, porque não podes amar sem viver — nem queres viver sem amar.
Viver é lutar — amar é ser imolado.
Para conquistar espaço vital, é necessário matar o vizinho — para amar, é necessário deixar-se matar.
“Nós temos uma lei, e segundo a lei ele deve morrer! Crucifica o Cristo — e solta-nos Barrabás!”
Crucifica o amor — e põe em liberdade o explorador!
A vida é violenta, cruel, sem coração; afirma-se à força de murros e pontapés, ao crepitar da metralha e ao furor mortífero de carros de assalto.
A “luta pela existência” elimina impiedosamente o que é fraco e conserva o que é forte — para que evolver possa o mundo material.
O amor ampara o que é frágil, abraça o que é imperfeito, acolhe o serzinho enjeitado, agasalha o órfão anônimo, enxuga as lágrimas da viúva, pensa as chagas do leproso, oscula os farrapos do mendigo, volta as costas ao que é forte e feliz e busca sempre o que é fraco e infeliz.
O amor é o avesso da vida.
É a face noturna dessa vida que folga aos fulgores da zona diurna.
É a fuga do zênite e a demanda do nadir da existência humana.
A vida mata para não morrer — o amor se deixa matar para que outros possam viver.
O amor cede aos outros o seu “lugar ao sol” — e submerge nas sombras ele mesmo.
Só pode ter amor o homem que se libertou da escravidão da matéria.
Independência — ou morte!
Ou proclamar a soberania do espírito sobre a brutalidade da matéria — ou então o amor assassinado pelo egoísmo da vida.
O amor é a mais poderosa afirmação do espírito.
É uma antecipação da vida eterna, onde será absoluto o domínio do espírito.
Quando terminar esta vida mortal, sucederá à atual desarmonia a mais perfeito harmonia entre o amor e a vida.
Não haverá mais explorador nem explorado.
Celebrarão o amor e a vida um tratado de paz e cantarão a sinfonia da grande e imperturbável felicidade...
Vida eterna...
Amor imortal...
(De “De Alma para Alma”, de Huberto Rohden)