O ENCURTAMENTO DA INFÂNCIA
A menina tem apenas 10 anos. Adentra o consultório da pediatra com pose de modelo, trajando roupa justa, tentando fazer aparecer as arredondadas formas que apenas se insinuam, dada a sua pouca idade. Nos pés, uma bota preta, saltos altos, apesar do calor de 30 graus. Nos lábios, um batom carmim. Na bolsinha, junto com bugigangas próprias da idade, agenda, objetos de maquiagem, perfumes e um celular de sua propriedade. A mãe diz que a criança sempre foi vaidosa, que escolhe ela mesma suas roupas e adereços e que nunca aceitou conselhos nessa parte. Rotulando os filhos de geniosos, personalidades fortes e outros adjetivos, os pais buscam justificar com isso sua perplexidade e incapacidade de gerir situações que fogem ao seu controle, no complicado processo de educar os filhos.Já foi o tempo em que a infância durava pelo menos 12 anos. Depois entrava a adolescência, para então a criatura se tornar um adulto, com a maturidade que a condição exige. Vestidos com babados, lacinhos no cabelo, rostinho angelical e casinhas de bonecas são coisas do passado. A edição 1673 da Revista Veja trouxe matéria sobre a precocidade das meninas, de 7 a 12 anos, fenômeno que parece ainda não ter despertado a preocupação de pais e educadores, dada a normalidade com que a coisa é vista e até estimulada. São meninas ainda, mas vestem-se como adultas e naturalmente tentam comportar-se como as tais. Até os festejos dos aniversários mudaram. Mesas com guloseimas e palhaços? Só para "pirralhos". A onda são as boates, DJ, balanços, jantares etc. Os modelitos usados são os das adultas, em miniatura. As sandálias têm saltos e às vezes bem altos, para desespero dos pediatras e ortopedistas. O celular tornou-se peça quase obrigatória. Quem não tem atormenta os pais até conseguir. Alguns nem precisam tanto, pois os generosos genitores os presenteiam com o que consideram "uma grande necessidade".
O mercado de consumo, maior interessado na doidice, está de olho nessa fatia da população que consome em larga escala e encomendou pesquisa para traçar o perfil de suas "clientes". Segundo a referida matéria, 80% das meninas usam maquiagem, 73% pintam as unhas e 87% fazem uso de perfume. Além disso, freqüentam academias e salões de beleza, mudando a cor dos cabelos, fazendo depilações etc. E sem falar das boates com festinhas para esses pequenos adultos, que sempre terminam "cedo demais" (à meia-noite). Não se pode esquecer que é uma geração que vem recebendo estímulos erotizantes continuamente, quer seja através da televisão com suas programações medíocres, quer seja na música de péssima qualidade existente no mercado, quer seja nas vitrines das lojas, ou mesmo em casa, convivendo com situações pouco edificantes e nada cautelosas dos pais.
Sonhar ser gente grande faz parte do amadurecimento de toda criança. Usar roupa dos pais, calçar os sapatos de saltos altos da mãe faz parte da lembrança de todos os que tiveram infâncias normais. Porém, o que se constitui em motivo de preocupação é que esse fato não é mais uma fantasia da infância. Constitui-se em realidade e transforma-se em um fenômeno do comportamento humano que deve ser analisado com mais cuidado. Sabe-se que atualmente as meninas apresentam a primeira menstruação mais cedo que há cem anos. As mudanças e o crescimento têm se acelerado por razões que a ciência tem tentado explicar e não consegue. As hipóteses são variadas. Mas não se pode tudo explicar com a teoria de que hoje tudo é diferente. É diferente por quê? Há que se encontrar uma razão para o fato de que hoje as crianças exigem e os pais obedecem seus caprichos. Os homens mudam, a sociedade muda. Mas as mudanças deveriam se constituir em melhorias, em alterar a natureza imperfeita do homem e seus costumes e não o contrário.
O encurtamento da infância representa um enorme prejuízo ao Espírito. A infância é o período em que ele se encontra acessível às impressões que recebe e que podem ajudar o seu adiantamento, para o qual devem contribuir os que estão encarregados de sua educação. É uma fase de repouso ao Espírito imortal, com suas experiências seculares de vida. É uma necessidade natural, onde ele vai aprender novas coisas, corrigir hábitos ruins, moldar caracteres de sua personalidade nem sempre bons. É um período muito especial e que deve ser encarado com todo cuidado e responsabilidade por parte de quem recebeu de Deus a tarefa de cuidar da criança. Os Espíritos superiores instruem em O Livros dos Espíritos, questão 385, que: "A debilidade dos primeiros anos os tornam flexíveis, acessíveis aos conselhos da experiência e daqueles que devem fazê-los progredir. É então que se pode reformar o seu caráter e reprimir as suas más tendências. Esse é o dever que Deus confiou aos pais, missão sagrada pela qual terão de responder".
Os pais e educadores carecem, portanto, instruir-se para instruir. E não estamos falando da educação formal apenas, mas, e principalmente, da educação moral, essencial para o Espírito. Embora o mundo atual imponha seus valores às famílias porta a dentro, os pais necessitam funcionar como guardiães de seus filhos, educando dentro de um sentido ético, sustentados na superior filosofia da moral de Jesus, ou seja, fazer aos outros o que quer para si. Combater o mal, eis a tarefa. E por mal, entendamos as mazelas que existem dentro de cada uma das individualidades que se recebe como filho. Egoísmo, orgulho e vaidade são doenças do Espírito que precisam ser extirpadas e não estimuladas como atualmente se faz. Significa dizer que se uma criança anseia ter um comportamento inadequado só para se igualar à maioria, os pais têm de ter a maturidade de coibir de uma forma ou de outra. Não faz sentido os pais renderem-se à "autoridade" da criança. As tendências de comportamento não podem se configurar como simples modismos. Devem ser vistas com cuidado, discutidas e analisadas suas conseqüências pelos pais, afinal a criança não têm condições para gerir sua própria vida.
A vida é dinâmica, tem um curso e apresenta etapas que devem ser cumpridas. É importante e faz parte da evolução de cada um viver a vida intrauterina, lactância, infância, adolescência, jovem, adulto, maturidade e senectude. Pular uma dessas etapas traz prejuízos sem dúvida, mas a mais grave delas é a anulação ou encurtamento da infância, fase de estruturação do Espírito para uma nova vida terrena, na qual ele vai acumular experiências, boas ou más, para a eternidade. Perdendo-se a oportunidade de instruir o Espírito nessa fase, pode-se colocar a perder toda aquela existência. Uma criança que aos 5 ou 7 anos decide o que fazer da vida, não começou a ser assim naquela idade. Desde cedo deu mostras de sua natureza, do tipo de sua índole e não foi visto com o cuidado devido para ser corrigido a tempo.
O móvel de todo esse destrambelho, sem dúvida, está na forma como o homem encara a existência. Tendo a ilusão de que a vida se resume entre o nascer e o morrer não valoriza a oportunidade que tem, como deveria. Enquanto estiver envolvido com a idéia de que a alma nasce com o corpo, vai permanecer no pensamento de que não pode fazer muita coisa quando determinada individualidade dá mostras de suas más tendências. O ditado "pau que nasce torto, morre torto" torna-se mentira quando muda-se o ponto de vista e passa-se a viver com a certeza da anterioridade da alma. A partir daí, o homem encara seus filhos, não mais como posses suas, ou como problemas, mas como uma criatura de Deus que precisa de rumos certos na estrada da vida. Enfrenta a tarefa da educação dessas criaturas como uma missão a cumprir e considera a família e suas relações, como o maior e mais importante laboratório de aprimoramento para seu Espírito. Nisso reside o iniciar-se na sabedoria.