De novo entrou Jesus a falar por parábolas, dizendo-lhes:
" O reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho. Então enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas; mas estes não quiseram vir...
Enviou ainda outros servos, com este recado:
- Digam aos convidados: "Eis que já preparei o meu banquete: os meus bois e meus cevados já foram abatidos, e tudo está pronto; venham para as bodas!"
Eles, porém, não se importaram, e se foram, um para o seu campo, outro para o seu negócio; e os outros, agarrando os servos, os maltrataram e mataram!...
O rei ficou irado e, enviando as suas tropas, exterminou aqueles assassinos e lhes incendiou a cidade. E então disse a seus servos:
- Está pronta a festa, mas os convidados não eram dignos!... Vão, pois, para as encruzilhadas dos caminhos e convidem para as bodas a quantos encontrarem!
E, saindo aqueles servos pelas estradas, reuniram todos os que encontraram, maus e bons; e a sala do banquete ficou repleta de convidados.
Entrando, porém, o rei para ver os que estavam a mesa, notou ali um homem que não trazia veste nupcial.
E perguntou-lhe:
- Amigo, como entrou aqui sem veste nupcial?
Ele emudeceu... Então ordenou o rei aos serventes:
- Amarrem-no de pés e mãos e lancem-no para fora, nas trevas; ali haverá choro e ranger de dentes!...
Porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos!..." (Mateus 22, vs. 1-14)
ALLAN KARDEC: O incrédulo sorri a esta parábola que lhe parece de uma puerilidade ingênua, porque não compreende que se possa criar tanta dificuldade para assistir a uma festa, e ainda menos que os convidados estendessem a resistência até o massacre dos enviados do senhor da casa. "As parábolas, diz ele, sem dúvida, são figuras, mas ainda é preciso que elas não saiam dos limites do verossímil."
Pode-se dizer o mesmo de todas as alegorias, das fábulas mais engenhosas, se não são despojadas de seu envoltório para procurar-lhe o sentido oculto. Jesus hauriu as suas nos usos mais vulgares da vida, e as adaptou aos costumes e ao caráter do povo ao qual falava; a maioria tem por fim fazer penetrar nas massas a idéia da vida espiritual; o seu sentido não parece freqüentemente ininteligível senão porque não se parte desse ponto de vista.
Nesta parábola, Jesus compara o reino dos céus, onde tudo é alegria e felicidade, a uma festa. Para os primeiros convidados, faz alusão aos Hebreus, que Deus chamou primeiro ao conhecimento da sua lei. Os enviados do Senhor são Os profetas que vieram exortá-los a seguir o caminho da verdadeira felicidade; mas suas palavras foram pouco escutadas; suas advertências foram menosprezadas; vários foram mesmo massacrados, como os servidores da parábola. Os convidados que se escusam com os cuidados a dar aos seus campos e aos seus negócios são o símbolo das pessoas do mundo que, absorvidas pelas coisas terrestres, são indiferentes quanto às coisas celestes.
Era uma crença, entre os Judeus de então, que sua nação deveria adquirir supremacia sobre todas as outras. Deus não havia, com efeito, prometido a Abraão que a sua posteridade cobriria toda a Terra? Mas sempre, tomando a forma pelo fundo, eles acreditavam numa dominação efetiva e material.
Antes da vinda do Cristo, à exceção dos Hebreus, todos os povos eram idólatras e politeístas. Se alguns homens, superiores ao vulgo, conceberam a idéia da unidade divina, essa idéia ficou no estado de sistema pessoal, mas em nenhuma parte foi aceita como verdade fundamental, a não ser por alguns iniciados que escondiam os seus conhecimentos sob um véu misterioso, impenetrável às massas. Os Hebreus foram os primeiros que praticaram publicamente o monoteísmo; foi a eles que Deus transmitiu a sua lei, primeiro por Moisés, depois por Jesus; foi desse pequeno foco que partiu a luz que deveria se derramar sobre o mundo inteiro, triunfar do paganismo e dar a Abraão uma posteridade espiritual "tão numerosa quanto as estrelas do firmamento". Mas os Judeus, repelindo a idolatria, haviam negligenciado a lei moral para se apegarem à prática mais fácil das formas exteriores. O mal chegara ao auge; a nação dominada estava fragmentada pelas facções, dividida pelas seitas; a incredulidade mesmo havia penetrado até no santuário. Foi então que apareceu Jesus, enviado para lembrá-los quanto à observância da lei, e abrir-lhes os horizontes novos da vida futura; convidados dos primeiros para o grande banquete da fé universal, repeliram a palavra do celeste Messias e o fizeram perecer; foi assim que perderam o fruto que teriam recolhido de sua iniciativa.
Seria injusto, todavia, acusar o povo inteiro desse estado de coisas; essa responsabilidade cabe principalmente aos Fariseus e aos Saduceus que perderam a nação, pelo orgulho e fanatismo de uns e pela incredulidade de outros. São eles, sobretudo, que Jesus compara aos convidados que recusam comparecer ao repasto de núpcias. Depois, acrescenta: "O Senhor, vendo isto, fez convidar todos os que se encontravam nas encruzilhadas, bons e maus"; ele queria dizer com isso que a palavra foi pregada a todos os outros povos, pagãos e idólatras, e que estes a aceitando, seriam admitidos na festa em lugar dos primeiros convidados.
Mas não basta ser convidado; não basta levar o nome de cristão, nem se assentar à mesa para tomar parte no celeste banquete; é preciso, antes de tudo, e como condição expressa, estar revestido com a roupa nupcial, quer dizer, ter a pureza de coração e praticar a lei segundo o espírito; ora, essa lei está inteiramente nestas palavras: Fora da caridade não há salvação. Mas entre todos aqueles que ouvem a palavra divina, quão poucos há que a guardam e a praticam! Quão poucos se tornam dignos de entrar no reino dos céus! Por isso, Jesus disse: Haverá muitos chamados e poucos escolhidos. (O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO, Cap. XVIII, ítem 2)