O LIVRE ARBÍTRIO

 

          — Não acredito em livre arbítrio. Na verdade, somos escravos de um destino, por vezes cruel.

          Assim falava Belarmino Fontes. Era professor brilhante. Dedicado cultor da filosofia. Inteligente e sincero. Entretanto, desde que perdera o filho em desastre automobilístico, tornara-se tristonho e fatalista.

          — Fontes — quem respondia era o doutor Medeiros, abnegado médico espírita — todos possuímos, sim, o livre arbítrio. Pensamos livremente. Agimos de acordo com a vontade. Deus outorga-nos a liberdade de decidir, conforme o grau de evolução do espírito. Somos dotados de certo grau de liberdade de ação.

          Ambos conversavam, aboletados em um banco de jardim. Aproveitavam o frescor da noite.

          — Não concordo — retrucava o professor — somos bonecos, presos a um fatalismo terrível.

          A conversa continuou por várias horas. Consultaram o relógio. Era uma e trinta da madrugada. Levantaram-se e começaram a andar, trocando idéias ainda. No entanto, ao dobrarem a primeira esquina, foram barrados por vulto agressivo de arma em punho, que exclamou, ameaçando:

          — O dinheiro ou a vida!

          Todavia, ante a surpresa do amigo, o Medeiros deu enorme gargalhada e completou:

          — Fontes, a Providência Divina leciona em qualquer circunstância. Embora você não acredite no livre arbítrio, terá que usá-lo agora, queira ou não.

De “Histórias da Vida”, de Antônio Baduy Filho, pelos Espíritos Hilário Silva e Valérium