MENSAGEM DE COMPANHEIRO

 

A ti, meu irmão, que assumiste comigo pesados encargos da existência num sanatório de hansenianos, sem possibilidades de cura física; a ti, para quem a ciência da Terra não conseguiu trazer, tanto quanto a mim, o medicamento salvador; a ti, que não tiveste, qual me ocorreu, a consolação dos egressos; a ti, que sofres entre a fé viva e a dúvida inquietante, entre a tentação à revolta e a aceitação da prova, acreditando-te freqüentemente esquecido pelas forças do Céu, ofereço a lembrança fraternal destes versos.

 Não te admitas réu de afrontosa sentença,

Largado de hora em hora à sombra em que te esmagas,

Varando tanta vez humilhações e pragas

À feição de calhaus da humana indiferença.

 

Crueldade, paixão, injúria, crime, ofensa

Criaram-nos, um dia, a estamenha de chagas!...

No pretérito abriste o espinheiro em que vagas

E, embora a provação, trabalha, serve e pensa.

 

Ânsia, tribulação, abandono, amargura,

São recursos da lei com que a lei nos depura

O coração trancado em nódoas escondidas...

 

Bendize, amado irmão, as feridas que levas,

A dor extingue o mal e o pranto lava as trevas

Que trazemos em nós dos erros de outras vidas.

 Espírito Jesus Gonçalves – Médium Francisco Cândido Xavier.

 

A ESTAMENHA DE CHAGAS

 Jesus Gonçalves utiliza em seus versos expressões como essas: túnica de chagas e estamenha de chagas para figurar a condição em que viveu no final da sua última existência terrena. A túnica de estamenha, grosseiro tecido de lã, era vestimenta comum na Judéia do tempo de Jesus. Evidente o simbolismo poético dessas expressões. Os judeus pobres vestiam-se de estamenha, enquanto os ricos usavam túnicas refulgentes dos mais finos tecidos. Mas na vida espiritual essa situação se invertia, como vemos na parábola evangélica de Lázaro e o rico.

     No soneto de Jesus Gonçalves vemos o mesmo processo. A estamenha de chagas é tecida no passado da própria criatura pela sua crueldade e a sua arrogância. No tear do destino os fios da loucura humana são tecidos pelas nossas ações. E aquilo que tecemos é precisamente o que iremos vestir em próxima existência. Ninguém, portanto, está sujeito na Terra a uma “afrontosa sentença”, mas apenas submetido às conseqüências de seu próprio comportamento em vida anterior. A cada um segundo as suas obras, porque somente assim aprenderemos a vencer o mal, a superar nossas tendências inferiores, nosso egoísmo criminoso.

     Os “recursos da lei” não representam condenação implacável, mas corrigenda necessária. Por isso escrevia Léon Denis: “A dor é uma lei de equilíbrio e educação”. Mas nem por isso devemos pensar que os sofredores não devem ser socorridos. A lei maior da caridade nos obriga a ajudar os que sofrem. É o que ensina o item 27 do capítulo V de O Evangelho Segundo o Espiritismo. É verdade que “a dor extingue o mal e o pranto lava as trevas”, mas a indiferença ante a dor e o pranto do próximo é também um mal que pode e deve ser extinto pela caridade. Socorrendo os que sofrem estaremos tecendo, no tear do nosso destino, os fios da sensatez e da bondade que nos preparam uma túnica de luz para o futuro.

Irmão Saulo (pseudômino usado por J. Herculano Pires)

(De “Na Era do Espírito”, de Francisco Cândido Xavier e J. Herculano Pires – Espíritos Diversos)