ESPINHEIROS DA VIDA

Espírito Cecília Meireles

 

Caminhei entre espinheiros,

Entre dores atrozes, desespero

A noite me envolvia,

E as minhas dores e meus ais

Só eram escutados por mim mesma.

Caminhei, ferindo meus pés descalços,

Na areia escorregadia,

Na terra, no asfalto quente.

Tive fome, tive sonhos

Que não se realizaram.

Tive dores, e foram tão intensas

Que mesmo apelando para os céus,

Mergulhei na terra densa.

Ah!... como sonhei amores,

Como sonhei viver uma vida diferente,

Onde eu pudesse ser,

Apenas feliz por ter,

Uma toalha na mesa,

Um cesto de pão

E um café com leite quente.

Sonhei ter um vestido...

Talvez de dois em dois meses, quem sabe!...

E tinha as roupas doadas, usadas, desbotadas

Que tinham sido novas,

Mas que o meu corpo novo,

Só conhecera depois que fora enjeitado.

Ah!... como eu sonhei um dia,

Pode sorrir, sentada num ônibus

Poder conhecer o mar,

Que apenas via,

Nas páginas dos livros escolares.

Como eu sonhei ser... menina feliz!

Menina contente...

De casar com véu e grinalda,

E ter um lar,

Onde eu pudesse dar para os meus filhos

Alguma coisa mais concreta,

Que não fosse apenas sonhar.

Desesperada vaguei nas minhas dores.

O meu grito foi contido pela morte,

A morte do meu corpo, a morte dos meus sonhos...

Ah!... porque a vida tem que ser assim?!

Um eterno chorar... um eterno sofrer...

Por que que os sonhos não se tornem verdade?...

Por que que a alegria morre no último grito

De medo e de pavor?...

Por que que a revolta tem que amanhecer cada dia,

E adormecer cada noite a desesperança em nossa alma?...

Ah!... meninas que caminham na terra...

Meninas que sonham...

Lembrem-se de que:

Maria também sonhou!...

E os seus sonhos, o seu desespero,

Morreram nos braços de uma cruz,

Onde o sacrifício maior do que seu filho Jesus,

Abraçava a humanidade inteira.

Todos nós sofremos,

Porque ainda não deixamos nascer em nossos corações,

A ternura da fé, a consciência de que

Todos nós somos capazes

De fazer alguém feliz,

De fazer alguém sorrir,

De fazer alguém alegre,

De sermos, realmente, como Jesus tanto sonhou,

Irmãos dos nossos irmãos.

Sonhe minha irmã!...

Quem sabe, um dia, a humanidade não será só um gemido de dor,

Numa noite escura a cercá-la da morte.

Sonhe um sonho de vida

Sonhe um sonho de luz!

 

 mensagem recebida por psicofonia pela médium Shyrlene Soares Campos

Transcrição de Deise S. E. Peres.