Os doutores espíritas
José Queid Tufaile Huaixan
"
Porque, vede, irmãos, a vossa vocação, que não são
muitos os sábios segundo a carne, nem muito os poderosos, nem muito os
nobres que são chamados" - Paulo de Tarso (I Coríntios 1:26).
É
bastante conhecida a influência que as elites exercem nos diversos setores
da sociedade e, como não poderia deixar de ser, também na área
da religião. Com suas idéias de cunho humano, elas modificam o
verdadeiro sentido dos textos, moldando-os segundo as próprias conveniências.
A história, como veremos, é testemunha deste fenômeno.
No movimento espírita, de uns anos para cá, vêm se observando
mudanças de práticas, hábitos e pensamentos em torno do
Espiritismo. A Doutrina do Consolador, promessa feita por Jesus Cristo aos homens,
vem sendo interpretada de forma equivocada, sem qualquer baliza racional. Os
responsáveis por esta conduta são membros das elites que acabaram
assumindo postos de comando nas federações e casas espíritas.
Embora seus pensamentos sejam relativamente úteis, quase sempre trazem
o cunho das idéias humanas. Amam as glórias sociais, os títulos
e o sentar nos primeiros lugares da festa.
A história de Epífanes - Por volta do ano 175 AC, governou a Judéia
o príncipe Antíoco Epífanes, que tinha simpatia pela filosofia
grega (helenista), adepta do politeísmo. O monarca via com bons olhos
a fundação deste tipo de seita em seus domínios, chegando
mesmo a levantar a estátua de Júpiter no templo de Jerusalém.
As escrituras antigas, deixadas por Moisés, determinavam que não
se deveria cultuar deuses estranhos. Que um só deus existia, chamando-O
Deus dos deuses. Epífanes, frente às obrigações da
Lei, começou a vê-la como obstáculo ao crescimento do helenismo.
Procurou resolver o problema pela forma que julgou mais simples: destruir as
Escrituras Sagradas. Com isso, iniciou acirrada perseguição a todos
quanto por elas tivessem simpatia. Mas, Deus sempre coloca ao lado do mal o remédio.
Um velho sacerdote chamado Matatias Macabeus, tomado de indignação
pelas atitudes do soberano, deu início a um levante popular destinado
a proteger os escritos divinos, chamado "A Revolta dos Macabeus". Segundo
alguns estudiosos, a palavra "macabeus" significa as iniciais da frase
hebraica "Quem há semelhante a Ti, ó Jeová, entre os
deuses?".
Considerado um fora da lei, Matatias fugiu para as montanhas e, em segredo,
fundou uma seita onde reuniu todos os que desejavam proteger a fé judaica. Tratava-se
dos Fariseus que, como diz o próprio nome, viviam "separados" dos
costumes religiosos da época. Graças a eles, os apontamentos de
Moisés e dos profetas antigos foram preservados.
A decadência dos Fariseus - Os Fariseus foram os mais encarniçados
inimigos de Jesus. Pergunta-se: como uma seita que nasceu de princípios
tão elevados, transformar-se-ia, mais tarde, no tribunal hipócrita
que perseguiu, julgou e condenou o homem de Nazaré? Voltemos à história.
Dois anos depois de nascer o movimento liderado por Matatias, o sacerdote adoeceu
e desencarnou. Seus cinco filhos assumiram a direção da seita e,
a partir daí, o poder político passou a ser do interesse de todos.
Julgavam que, atuando junto ao governo, teriam maiores chances de modificar as
leis estabelecidas, corrigindo os rumos da religião. Com isso, deram partida à luta
pela posse de posições na esfera governamental.
Os Macabeus, inebriados pelo sonhos humanos e fazendo uso dos conchavos, passaram
a conviver pacificamente com os seguidores das doutrinas gregas.
Em pouco tempo, os doutores que dirigiam o Estado, principal elite da época,
começaram a influenciar na interpretação da Lei. Nasciam
normas e mais normas, introduzidas nas práticas, conhecidas mais tarde
como "a tradição dos antigos".
Os costumes eram adaptados segundo a conveniência dos doutores. Nascia
o Sanedrim, ou Sinédrio, que perseguiu e condenou ao sacrifício
o homem chamado Jesus, que ousou expor uma doutrina diferenciada da que cultuavam.
A Igreja Católica - Na história da Igreja Católica, observamos
o mesmo tipo de interferência. No princípio, sob a orientação
de Paulo de Tarso, a Igreja não estava, em momento algum, ligada aos poderes
do mundo. Ao contrário, era perseguida por eles. O cristianismo vivia
os ensinamentos morais e espirituais do Mestre. As práticas da época
eram semelhantes as dos atuais centros espíritas, com a única ressalva
de que nem todos sabiam que o Espírito Santo - aquele dos "dons espirituais" -,
era almas de homens que se manifestavam.
A mediunidade era praticada e desenvolvida tendo em vista a orientação,
cura e alívio dos desesperados. A filosofia do invisível era estudada
na busca do entendimento de tudo o que se estendia além da morte. O mundo
de César, porém, não deu tréguas. Providências
foram tomadas para que os poderes transitórios viessem, uma vez mais,
apossar-se dos bens de Deus.
As portas do Espírito, abertas por Jesus com seu profícuo trabalho,
fecharam-se. Iniciou-se um grave processo de distorção que culminou
no papado. Pela influência das elites e do Estado, a interpretação
da mensagem divina foi novamente adaptada aos interesses terrenos. Nascia o
catolicismo.
No movimento espírita - Atualmente, vê-se no movimento espírita
uma poderosa influência das elites, que podemos considerar os "doutores" do
nosso tempo. Semelhante ao que ocorreu no passado, estas pessoas estão
interpretando os ensinamentos dos Espíritos à luz do próprio
conhecimento e dos interesses pessoais. As personalidades transitórias
vêm sendo cultuadas como faziam os Fariseus dos tempos do Cristo. Alguns
jornais espíritas, editados por federações, são verdadeiros
templos de vaidades, onde se deleitam orgulhosos escritores, oradores e médiuns.
A maioria dos congressos são meros acontecimentos sociais e políticos,
onde brilha o culturalismo daqueles que dirigem o sistema.
As obrigações fundamentais da vida espírita, o esforço
constante para conhecer-se, o estudo regular da revelação e o desenvolvimento
do raciocínio lógico foram substituídos por preocupações
de somenos importância. O assistencialismo tornou-se a principal tarefa
dos seguidores de Allan Kardec. Pseudo-professores e falsos líderes semearam
no terreno filosófico as sementes de doutrinas de Espíritos enganadores.
TVP, Transcomunicação Instrumental, Cromoterapia, Ufologia, Roustainguismo
e outras "ciências" sem bases morais e doutrinárias, chegaram
até o movimento pelo discurso polido dos intelectuais.
As elites adoram a troca pública de amabilidades, uma espécie de
doença moral da nossa época. Paulo disse em sua segunda carta a
Timóteo que nos últimos tempos haveria criaturas amantes de si
mesmas, soberbas, desobedientes à Lei. Com aparência do bem, mas
sem a eficácia dele. Entre nós, multiplicam-se esses valores. É a
decadência dos que seguem revelação espírita.
O trabalho dos centros espíritas está entregue às interpretações
de cada dirigente que, bem ou mal, tenta fazer a casa cumprir com sua tarefa.
Nunca tivemos um sistema lógico e objetivo, que pudesse formar dirigentes
e trabalhadores produtivos, com reais condições de servirem às
necessidades da Seara. Um amadorismo pueril está presente em toda a parte.
A prática doutrinária brilha em letras, discursos e obras materiais,
mas em realizações espirituais e objetividade, mostra-se extremamente
pobre.
O Espírito e o mundo - Todos temos consciência que a obra do Espírito
fere mortalmente os interesses terrenos. Entre nós espíritas, houve
um grave descuido do "vigiai e orai", ensinado pelo Mestre. O mundo
agiu e nós fizemos pouco para impedi-lo.
Hoje, não é tempo para a destruição de livros, nem
para a perseguição de pessoas, mas existem métodos hipócritas
pelos quais os símplices podem ser enganados. Onde a seriedade da desobsessão?
Onde a formação de médiuns sérios, capazes? Onde
o Controle Universal dos Espíritos? Onde a ascendência moral que
transforma pela palavra os que se perderam na vida? Onde está o estudo
do pensamento e da história em busca da verdade?
Falta-nos o ânimo dos cristãos primitivos, dos espíritas
legitimamente kardequianos. Não é possível continuarmos
ouvindo oradores realizarem discursos ufanistas de felicidade enquanto a humanidade
agoniza; assistirmos às tolas discussões filosóficas em
torno da doutrina de Roustaing ou da supremacia da Federação Espírita
Brasileira sobre os espíritas do mundo. É chegada a hora de nós
espíritas sérios pensarmos em reunir forças em torno dos
ideais de Allan Kardec, de modo a preservarmos sua mensagem.
04/06/99