Operações espirituais:
como acontecem
José Queid Tufaile Huaixan
A maioria das pessoas, espíritas ou não, já ouviu falar
das "operações invisíveis". Segundo se entende,
elas seriam intervenções cirúrgicas no perispírito,
realizadas por equipes de médicos desencarnados.
Será que isso é possível? Este tipo de auxílio espiritual
poderia ser implantado rotineiramente no centro espírita? Haveria algum
impedimento legal ou doutrinário a ser observado?
Como se vê, são muitas as indagações que se podem
fazer em torno do assunto. A finalidade deste estudo é encontrarmos respostas
a tais perguntas, tendo em vista nosso aprendizado e a melhoria dos serviços
mediúnicos prestados ao povo.
Nas atividades do Grupo Espírita Bezerra de Menezes, temos tido a oportunidade
de verificar mediúnicamente o trabalho de uma equipe espiritual, que nos
parece composta por médicos-cirurgiões.
Observamos suas atividades durante alguns anos e concluímos que prestam
importante serviço no campo do alívio e cura das enfermidades.
Fundamentados nessa experiência e no raciocínio acerca dos fundamentos
doutrinários, afirmamos que as operações cirúrgicas
no perispírito são perfeitamente possíveis de serem realizadas
pelos desencarnados, e que geralmente não são aceitas pelas sociedades
por causa de preconceitos e de suas conseqüências morais.
O perispírito
Allan Kardec, quando realizou seu trabalho na Codificação, colocou
a existência do corpo espiritual como um dos alicerces no qual se assentava
a fenomenologia espírita.
Chamou este corpo de perispírito, classificando-o como o elo invisível
a unir o princípio espiritual ao princípio material. Sem ele, o
Espírito, fundamentalmente abstrato, não poderia agir sobre a matéria,
ficando impossibilitado de encarnar-se. Procuremos agora, compreender a natureza
deste corpo fluídico.
O que diz Allan Kardec?
Em várias ocasiões, o Codificador esteve avaliando a constituição
do perispírito. Suas conclusões apontam o corpo espiritual como
sendo o elo que transmite o desejo do espírito ao corpo material. Em um
de seus estudos, publicado na Revista Espírita, número de março
de 1866, intitulado "Introdução ao Estudo dos Fluidos Espirituais",
Kardec demonstra que o corpo material e o espiritual são provenientes
da mesma fonte, isto é, do fluido básico universal.
O que diz a Codificação?
A Codificação espírita revelou questões básicas
a respeito de todos os pontos importantes para quem pratica o Espiritismo. Consultamos "O
Livro dos Espíritos" e encontramos colocações capazes
de nos apontar rumos no estudo proposto. Essas questões dão a entender
que o perispírito é algo mais que uma massa fluídica homogênea.
Na questão 137, Kardec pergunta se poderia haver uma divisão do
Espírito quando fosse reencarnar.
Pergunta: - O mesmo Espírito pode encarnar-se de uma vez em dois corpos
diferentes?
Resposta: "Não. O Espírito é indivisível e não
pode animar simultaneamente duas criaturas diferentes".
A questão 140, logo à frente, indaga o seguinte:
Pergunta: - Que pensar da teoria da alma subdividida em tantas partes quantos
são os músculos, presidindo cada uma as diferentes funções
do corpo?
Resposta: "Isso depende do sentido que se atribuir à palavra alma.
Se por ela se entende o fluido vital, está certo; se o Espírito
quando encarnado, está errado. Já dissemos que o Espírito é indivisível:
ele transmite o movimento aos órgãos através do fluido intermediário,
sem por isso se dividir".
Quando Kardec coloca a questão 140, pergunta da possibilidade de o Espírito
se dividir em tantas partes quantas fossem os órgãos do corpo.
Referindo-se à pergunta anterior, o Espírito de Verdade responde
que tudo dependia do sentido que se atribuía à palavra "alma".
Se por ela se entendia o fluido vital, estava certo. Quer dizer, haveria uma
divisão fluídica dos fluidos perispirituais em torno dos órgãos
materiais. Se por ela se entendia o "Espírito", estava errado,
pois tinha afirmado anteriormente que o Espírito era indivisível.
Na questão 140-A, Kardec complementa:
"
A alma age por meio dos órgãos, e estes são animados pelo
fluido vital que se reparte entre eles, e com mais abundância nos que são
os centros ou focos do movimento".
Fica evidente que o perispírito não seria um todo fluídico
homogêneo, como comumente se pensa.
Perguntamos: essas massas fluídicas em que Kardec afirma dividir-se o
perispírito seriam órgãos fluídicos? A resposta a
esta questão estaria embutida em estudos e revelações
espirituais vindas no futuro.
O que disseram as obras subsidiárias?
Em termos de obras complementares, optamos pela citação das psicografadas
por Francisco Cândido Xavier, dado à idoneidade do médium.
Em varias partes do seu trabalho, os Espíritos que o assistem revelaram
tratar-se o perispírito de uma organização fluídica
complexa e que o corpo carnal seria um grosseiro reflexo do corpo espiritual.
Vejamos o que diz André Luiz, no livro "Evolução em
Dois Mundos":
"
Para definirmos, de alguma sorte, o corpo espiritual, é preciso considerar,
antes de tudo, que ele não é reflexo do corpo físico, porque
na realidade, é o corpo físico que o reflete, tanto quanto ele
próprio, o corpo espiritual, retrata em si o corpo mental que lhe preside
a formação" (Corpo Espiritual, pág.25).
"
Todos os órgãos do corpo espiritual e, conseqüentemente, do
corpo físico, foram, portanto, construídos com lentidão,
atendendo à necessidade do campo mental em seu condicionamento e exteriorização
no meio terrestre" (Gênese dos Órgãos Psicossomáticos,
págs.40/41).
Como se vê, há indícios patentes de que o perispírito
seria um organismo complexo, dotado de células e de tecidos e, o que é interessante,
de órgãos funcionais, como aqueles que temos no corpo físico.
Mas, será que são reais? Sim, afirmamos. São tão
reais como os do corpo carnal, constituído por uma realidade mais densa.
Tanto um como o outro, no entanto, são obras milenares construídas
pelo pensamento do espírito na sua ascensão para Deus.
As ocupações dos Espíritos
A Doutrina Espírita revela que os espíritos, depois de sua desencarnação,
ocupam-se, na Espiritualidade, das mesmas atividades que eles desempenhavam em
vida. A causa primeira desta preocupação estaria no condicionamento
imposto ao Espírito pela sua experiência na matéria. Depois,
pela sua própria vontade em servir dentro do campo de seus conhecimentos.
A Revista Espírita, no ano de 1865, narra um episódio onde ocorre
o desencarne do Dr. Antoine Demeure, um médico com quem Kardec correspondia.
Em mensagens na Revista, a entidade fala de suas condições no mundo
espiritual, revelando que no Além continuava cuidando de enfermos, como
o fazia na Terra.
Numa carta vinda de Montauban, publicada por Kardec, um correspondente narra
um trabalho de cura orgânica feito pelo médico/espírito Demeure
durante uma sessão mediúnica. Nela, ocorre a cura instantânea
de um grave entorse que incomodava uma vidente.
É
natural que, desencarnados, os médicos se ocupem em ajudar aqueles que
estão enfermos, no Além como na Terra.
No livro "Evolução em Dois Mundos", página 213,
há uma questão ventilada por André Luiz, cujo teor fala
da Medicina no Mundo dos Espíritos.
Pergunta - Quais os principais métodos usados na Espiritualidade para
o tratamento das lesões do corpo espiritual?
Resposta: Na Espiritualidade, os servidores da medicina penetram, com mais
segurança,
na história do enfermo para estudar, com êxito possível,
os mecanismos da doença que lhe são particulares. Aí os
exames nos tecidos psicossomáticos com aparelhos de precisão, correspondendo às
inspeções instrumentais e laboratoriais em voga na Terra, podem
ser enriquecidos com a ficha cármica do paciente, a qual determina quanto à reversibilidade
ou irreversibilidade da moléstia, antes da nova reencarnação,
motivo por que numerosos doentes são tratáveis, mas somente curáveis
mediante longas ou curtas internações no campo físico, a
fim de que as causas profundas do mal sejam extirpadas da mente pelo contato
direto com as lutas em que se configuram".
Como se pode ver, nos círculos espirituais mais próximos da Terra,
acontecem atividades médicas similares àquelas que se observam
nos hospitais terrenos. Ora, se o perispírito de um desencarnado pode
sofrer uma cirurgia, obviamente o de um encarnado também o pode. Inúmeras
observações mediúnicas feitas na história do Espiritismo
apontam curas orgânicas realizadas por médiuns. Nestes trabalhos,
os espíritos operadores falaram destas cirurgias e das formas como elas
se processavam.
Fluidoterapia
A fluidoterapia é a técnica de tratamento utilizada nos centros
espíritas. As cirurgias perispirituais pertencem a este campo, devido
serem atividades ligadas à manipulação dos fluidos. Classificam-se,
porém, por fenômenos dotados de características próprias,
tanto em termos fluídicos como espirituais. Estão intimamente ligadas à mediunidade
curadora e, por isso, a equipe que as produz deverá ter entre seus membros
a presença de um ou mais médiuns curadores. Estes, serão
assistidos por entidades desencarnadas, ligadas ao campo da medicina, conhecedoras
dos meandros da saúde espiritual e da lei de causa e efeito.
Quando se considera o trabalho de passes, a magnetização não
exige nenhuma condição especial.
Qualquer pessoa poderá ministrá-los de forma razoável. Já a
cirurgia espiritual só poderá ser realizada por espíritos
especializados nesta área.
Pode-se afirmar que o passe está para a cirurgia espiritual assim como
o trabalho de um farmacêutico está para o de um médico. Enquanto
um ministra uma medicação o outro faz o diagnóstico da enfermidade,
prescreve a medicação ou realiza uma cirurgia na recuperação
do corpo enfermo.
Mecanismos da fluidoterapia
Na fluidoterapia a movimentação fluídica ocorre através
da vontade do médium e dos espíritos que o circundam. Sua ação
benfazeja contribui para afastar do enfermo parasitas fluídicos, espíritos
enfermos ou obsessores e contaminações magnéticas que oprimem
a vida mental, impedindo-a de sintonizar com as regiões mais elevadas.
Ainda nas enfermidades graves, o passe convencional mostra-se benéfico,
porque o perispírito, à semelhança de uma esponja, absorve
os fluidos espirituais que nele são depositados. Sua entrada na camada
perispiritual é facilitada pela sintonia vibratória entre a fonte
e o emissor. Fundamentados no que disse Allan Kardec em O Livro dos Espíritos,
acreditamos que o perispírito traz em si, um mecanismo de automação
espiritual, onde os fluidos se concentram nas regiões mais carentes da
estrutura. É uma ação parecida com a dos anticorpos da organização
física, nos casos de infecções.
Nas contaminações com baixo magnetismo, obsessões ou influenciações
de espíritos sofredores, o passe produz um alívio imediato de sintomas
e, por esta razão, deve ser ministrado rotineiramente nas casas espíritas.
A natureza do mundo espiritual
No movimento espírita transitam algumas idéias limitadas a respeito
da natureza do mundo espiritual. Geralmente, pensa-se que o mundo invisível é uma
região de abstração, onde as formas são revestidas
de fluidos tênues. Tal pensamento foi fortalecido pela revelação
feita pelos espíritos, dizendo que os fluidos são modificáveis
pela ação do pensamento.
Sim, os fluidos espirituais sofrem as impressões do pensamento, modificando-se
segundo sua natureza, mas devemos ter o cuidado de não carregarmos essa
idéia com os excessos da imaginação. Se a influência
fosse tão intensa como querem alguns, pela imensa variedade de almas desencarnadas
existentes no Além, tal mundo não teria estabilidade alguma e estaria
em constante mutação. O mundo invisível é estável
e tão palpável quanto o terreno.
Allan Kardec, em "A Gênese", demonstra por uma série de
raciocínios a ponderabilidade das regiões espirituais. É evidente
que todos os objetos encontrados na Espiritualidade são produtos do pensamento
de alguém que os criou, mas nem por isso deixam de ser reais. O Universo
material, por exemplo, é uma criação do pensamento Divino,
e nos parece muito real.
Por este raciocínio, queremos entender a possibilidade da existência
no mundo invisível de instrumentos cirúrgicos, os quais têm
sido observados nas operações no corpo astral.
Sobre a grande oficina da vida espiritual, Kardec assim se refere em "A
Gênese", capítulo XIV, item 14.
"
Os Espíritos agem sobre os fluidos espirituais, não que os manipulem
como os homens manipulam os gases, mas com o auxílio do pensamento e da
vontade. O pensamento e a vontade são para os Espíritos aquilo
que a mão é para o homem. Pelo pensamento, eles imprimem a tais
fluidos esta ou aquela direção; eles os aglomeram, os combinam
ou os dispersam; formam com esses materiais, conjuntos que tenham uma aparência,
uma forma, uma cor determinadas; mudam suas propriedades como um químico
altera as propriedades dos gases ou de outros corpos, combinando-os segundo determinadas
leis. É a grande oficina ou laboratório da vida espiritual".
Podem os Espíritos de médicos construírem, com seus pensamentos,
instrumentos cirúrgicos, como os que eram utilizados por eles em vida
corpórea? Tudo indica que sim. Vejamos uma vez mais, as palavras do
Codificador, no mesmo item.
"
O pensamento do Espírito cria fluidicamente os objetos dos quais tem o
hábito de se servir; um avaro manejará o ouro, um militar terá suas
armas e seu uniforme, um fumante, seu cachimbo, um trabalhador seu arado e seus
bois, uma mulher velha, seus aparelhos de fiar. Esses objetos fluídicos
são tão reais para o Espírito, o qual é fluídico
também, como o eram no estado material para o homem vivente; porém,
pela mesma razão de que são criados pelo pensamento, sua existência é também
fugitiva como o pensamento".
Concluí-se, pois, que a vida dos espíritos livres só pode
ter similaridade com a existência terrena, devido a esta propriedade que
tem o pensamento de agir no universo fluídico, criando as formas. De outro
modo, teríamos o nada.
Causa das enfermidades
Quanto à origem das enfermidades, podemos classificá-las como sendo
provenientes de duas fontes. Numa, a causa do mal reside na alteração
da estrutura orgânica, provocada por uma causa física qualquer.
Na outra, temos um tipo de enfermidade, onde fluidos espirituais impregnados
de baixo magnetismo, atuam no corpo espiritual causando desarmonia no funcionamento
do corpo físico. A primeira fonte de enfermidades é objeto de estudo
da medicina humana. A segunda, deveria ser preocupação dos estudiosos
da ciência espírita, uma vez que a terrena ainda não aceita
a existência do mundo invisível.
O centro espírita ainda é o lugar onde Deus pode exercer através
dos Espíritos a medicina espiritual para benefício dos que sofrem.
Kardec afirma que a maioria das moléstias, como todas as misérias
humanas, são expiações do presente ou do passado, ou provações
para o futuro.
Não pode ser curado aquele que deve suportar sua provação
até o fim. Isto não quer dizer, que se deva deixar o enfermo ao
abandono para que sofra as expiações do seu carma. Às vezes,
está em nossas mãos a tarefa de fazer cessar o sofrimento daqueles
que nos procuram, fazendo uso da metodologia espírita.
A operação espiritual
O mecanismo da cura não é difícil de ser compreendido, pois é conhecido
de todos. Nas enfermidades localizadas no corpo carnal, o processo terapêutico
convencional, através de medicação, procura substituir as
moléculas desorganizadas, enfermiças, por outras saudáveis.
Isto se faz com o uso da química farmacêutica e, em alguns casos,
pela conduta cirúrgica.
Nas doenças provenientes do corpo espiritual o processo curativo é exatamente
o mesmo, só que realizado por médicos desencarnados. Livres da
matéria, os Espíritos podem se encarregar desta tarefa com precisão,
pois a tudo penetram com facilidade. Neste último caso, as moléculas
substituídas são as do perispírito, causando conseqüências
diretas na organização física. A este processo chamamos "operação
espiritual".
Os Espíritos Superiores, ligados à área da medicina, realizam
as atividades curativas, tendo em vista o alívio do sofrimento dos enfermos
que buscam conforto nas casas de caridade.
Como organizar uma sessão destinada às curas espirituais?
Todas as casas espíritas podem promover reuniões com a finalidade única
de atender aos doentes do corpo. No movimento espírita, de um modo geral,
não há especialização em nenhum setor da prática
doutrinária. Tudo fica na dependência de que o Alto faça
sua caridade, quando e como bem entender. Temos afirmado que há uma necessidade
urgente dos centros espíritas promoverem em seus quadros de serviços,
uma reforma visando torná-los produtivos. O núcleo que tiver
disponibilidade, deve especializar-se, utilizar o Espiritismo para atender
quem precisa de ajuda.
Sabemos que todo o trabalho espírita fundamenta-se na movimentação
de fluidos impregnados de magnetismo. A natureza deste magnetismo está intimamente
ligada às qualidades morais das pessoas e dos espíritos envolvidos.
Um trabalho onde se propõe produzir fenômenos de curas é bem
diferente daqueles onde se trata especificamente da obsessão. Nas reuniões
onde se cuidam de pessoas alteradas emocionalmente, ou perturbadas por espíritos
inferiores, é certo que haverá ali a presença do magnetismo
inferior.
Nas reuniões de curas, onde acontecerá uma operação
de reposição molecular e expulsão de miasmas da estrutura íntima
da matéria, os fluidos a serem utilizados serão de natureza fina,
impregnados do magnetismo superior.
O mais sensato, pois, é organizarmos as sessões de curas num dia
apropriado para ela. Não devemos misturar os trabalhos de curas com os
de desobsessão.
Kardec diz que em alguns casos, as enfermidades podem ter como causa primária
a obsessão. Nestes casos, quando se detectar influências obsessivas,
o paciente deverá receber cuidados nas duas áreas assistenciais,
com predominância no setor desobsessivo. Como não há indícios
de que um médium tenha a faculdade de curar, as equipes interessadas nestas
atividades devem formar um grupo para ministrar o passe curativo. Aqueles em
que pesar a suspeita de serem doadores específicos, devem ser experimentados
nas sessões de curas.
Todos os sintomas, o procedimento de tratamento e resultados devem ser controlados
de modo a se ter idéia se os métodos estão funcionando a
contento. Os médiuns curadores devem evitar o toque físico no paciente.
Não é necessário que isto aconteça para que se processe
o fenômeno curativo.
A ação magnética será simplesmente aquela que se
faz no passe, ou seja, imposição das mãos por tempo mais
ou menos determinado. Em alguns grupos, utiliza-se um divã para deitar
os pacientes que exijam uma magnetização mais intensa.
No grupo onde trabalhamos, o paciente é submetido a um primeiro atendimento,
feito pelo grupo principal, voltado exclusivamente neste dia para os trabalhos
de cura. Depois, semanalmente, continua recebendo passes nas sessões que
se seguem à evangelização. Este serviço é feito
pelos médiuns passistas comuns. Cada sociedade deve criar seu método
e avaliar os resultados.
É
ilegal curar no centro espírita?
Sim, é ilegal do ponto de vista jurídico. As leis são normas
de vida que são feitas com a finalidade de orientarem a conduta do homem.
A legislação diz que para se exercer o direito de curar um enfermo,
uma pessoa tem que ser devidamente habilitada para isso. A humanidade conta com
universidades destinadas à formação de médicos profissionais
nos muitos setores da saúde. Seria uma falta de senso, se a sociedade
aprovasse a ação impensada de uma pessoa, que se propusesse curar
seu próximo, simplesmente porque crê ter poderes para isso.
E nós espíritas, como ficamos em face desta ilegalidade? É simples.
As mesmas leis que proíbem a prática ilegal da medicina, também
nos faculta o direito de culto, protegendo o ambiente religioso onde se professam
as crenças.
O Espiritismo é uma religião e devemos deixar claro que nossos
trabalhos de assistência aos enfermos são objetos da fé que
os homens têm em Deus e na assistência dos Espíritos.
Se não há o uso de qualquer instrumentação material;
se não ocorre a prescrição de medicamento; se não
há cobrança por assistência prestada; se não há promessas
de curas; não existe como acusar legalmente um centro por prática
de curandeirismo.
Os trabalhos de curas devem ser desenvolvidos dentro do âmbito religioso.
Na sociedade onde trabalhamos, fixamos uma placa logo na entrada do centro, informando
a natureza do trabalho desenvolvido, de modo que não haja enganos quanto à natureza
religiosa da assistência espiritual.
Na história do Espiritismo houve médiuns curadores que vieram desenvolver
um trabalho curativo a que se denomina "missão". Estes médiuns
aparecem de tempos em tempos, com suas operações chocantes, e vêm
exercer um papel de chamar a atenção da ciência materialista
para a existência da alma. Operam o corpo carnal utilizando instrumentos
cortantes, sem anestesia ou assepsia. Estes médiuns encarnam-se preparados
para viver a espinhosa tarefa e acabam processados e presos pelas leis terrenas.
Estes, devem cumprir suas missões.
O serviço de assistência a enfermos, proposto aqui neste trabalho,
nada tem de ilegal. Pode ser realizado por qualquer núcleo espírita.
O preconceito
As operações espirituais são técnica e racionalmente
concebíveis, como demonstramos em nossos escritos. Por que motivo são
alvo de preconceitos por espíritas e médicos espíritas?
Tudo acontece simplesmente por razões morais.
Allan Kardec demonstra que os médiuns curadores formam uma categoria à parte
de doadores fluídicos. Seria lógico que estes indivíduos, à medida
que se suspeitasse de suas faculdades, fossem encaminhados para uma sessão
apropriada, onde o atendimento aos enfermos fosse a meta. Mas, não é isso
o que acontece. Em nome da caridade, resolve-se manter as aparências, instituindo
a idéia de que todos são iguais e que a formação
de classes especializadas em determinados serviços, levaria seus partícipes à idéia
de engrandecimento.
Essa questão, em verdade, tem dois lados. Num, estão os médiuns
que sem conhecerem a Codificação, ou estando mal orientados, pensam
que as curas promovidas por seu intermédio são produtos de sua
grandeza espiritual. Não possuem consciência de que o dom que lhes
foi dado, poderá ser tirado a qualquer instante. É a ignorância.
No outro lado, estão as pessoas que se sentem rebaixadas e humilhadas,
quando alguém faz alguma coisa que elas, por seus limites, não
são capazes de fazer. É o orgulho.
Uma vez mais, a ausência de metodologia administrativa racional leva a
opção pela pseudo-igualdade. Estabelece-se que todos são
iguais e que qualquer um pode fazer qualquer coisa, desde que em nome de Jesus.
O resultado desta política, é que quase nada acontece em termos
de curas.
Finalidade dos trabalhos de curas
No movimento espírita existe uma ala de seguidores que afirma serem os
trabalhos de cura uma atividade dispensável. Segundo eles, o Espiritismo
teria vindo ao mundo para curar as almas e não os corpos perecíveis.
Trata-se de uma filosofia belíssima, porém, comporta algumas observações.
Se o Espiritismo é o cristianismo redivido, e à época de
Jesus ele promovia curas em nome desta Doutrina, por que motivo nós que
somos seus discípulos não o podemos fazer? Por que Jesus utilizava-se
deste poderoso recurso? Qual a finalidade dos trabalhos curativos? Ora, sabemos
que o Mestre tornou-se conhecido mundialmente por seus "milagres",
não por sua doutrina. Isto por quê? Pelo fato de que o homem terreno,
em vista do seu atraso, apega-se aos interesses imediatistas. Não daria
ouvidos a nenhuma filosofia, que não lhes falasse às suas necessidades
materiais.
Os homens de hoje são diferentes da época em que viveu Jesus? Não,
não são. Há um indiscutível progresso tecnológico,
mas, moralmente, o homem pouco mudou. Se vamos nos dirigir à sociedade,
temos que oferecer a ela algo ligado às suas necessidades imediatas,
para despertar-lhe o interesse.
Quando o centro produz em termos de desobsessão e alívio das enfermidades
físicas, há grande procura por seus serviços. O contato
com as pessoas nos dá oportunidade para levarmos até elas o conhecimento
da Doutrina.
É
o mesmo trabalho que Jesus Cristo e os apóstolos desenvolviam. Pode-se
afirmar, sem sombras de dúvidas, que o Espiritismo não sobreviveria
sem seus fenômenos mediúnicos. Alguns trabalhadores colocam-se na
cômoda posição de discípulos incapazes. É um
outro erro. Jesus era o Mestre, porém, afirmou que seus seguidores fariam
obras iguais as suas ou maiores que elas.
Acreditamos, pois, que as atividades assistenciais a nível mediúnico
são de fundamental importância para a sobrevivência do centro
espírita como posto a serviço da Espiritualidade. A cura física
se encaixa perfeitamente na finalidade misericordiosa e iluminadora do cristianismo
e, por extensão, do Espiritismo.
"
A mediunidade curadora não vem suplantar a medicina e os médicos;
vem simplesmente provar que há coisas que eles não sabem e os convidar
para estudá-las; que a natureza tem recursos que eles ignoram; que o elemento
espiritual que eles desconhecem, não é uma quimera, e que, quando
o levarem em conta, abrirão novos horizontes à ciência e
terão mais êxitos do que agora" (Allan Kardec, Revista Espírita,
novembro de 1866).